15 de mai de 2011

LOUCA OBSESSÃO



Louca obsessão
Quatro horas de musculação por dia, cardápio composto exclusivamente de alimentos crus, nenhum corante ou conservante no prato. Até onde você está disposta a ir para ser saudável?
Por Juliana Diniz // Fotos Chayo Mata
Todo mundo teme a queda da bolsa, da vitalidade e do bumbum. Mas, mais do que uma crise global, temos pesadelos com a derrocada nos dois últimos campos. Na pesquisa Global Nielsen sobre a Confi ança do Consumidor, realizada mundialmente e divulgada em julho, 16% dos brasileiros disseram que sua principal preocupação nos próximos seis meses é a saúde — o índice mais alto na América Latina. Também pudera: somos culturalmente pressionados para viver mais e melhor. “Temos que nos manter belos, jovens e efi cientes”, afi rma a psicanalista Dirce de Sá Freire, coordenadora do curso de transtornos alimentares da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ). “Mas o corpo dá sinais de que não é fácil se sustentar sobre esse tripé.”

Em busca da longevidade, estamos nos tornando neuróticas com a alimentação e exagerando nas atividades físicas. Essas atitudes podem esconder uma obsessão pela saúde e — ironia do destino — em pouco tempo devem ser ofi cialmente consideradas doenças: uma nova leva de transtornos alimentares e de imagem corporal, em que se destacam a ortorexia e a vigorexia. Veja se você está se tornando verde demais — ou porque só come plantas ou porque é forte candidata a namorada do Hulk.

ORTOREXIA:   O que é Tente se lembrar de tudo o que você comeu hoje no almoço. Tarefa fácil. Agora pense na quantidade de calorias, gorduras saturadas e insaturadas, vitaminas e minerais ingeridos. Certifi que-se de que tudo tenha sido preparado de acordo com as mais rígidas normas de higiene, com alimentos orgânicos e embalagem reciclável. Parece complexo? É assim que funciona a mente de uma ortoréxica. A palavra tem origem no grego: “orthos”, de correto, e “orexis”, que se refere à fome. O quadro clínico surge de uma distorção da ideia de que a comida natural é a melhor forma de alimentação. Enquanto uma pessoa anoréxica está preocupada com as calorias dos alimentos, a ortoréxica se atém à qualidade do que coloca no prato. Só leva para casa produtos que considere 100% saudáveis, mesmo que o julgamento não tenha nenhum embasamento científi co. Na maioria das vezes, elenca uma lista de vilões, excluindo da dieta, por exemplo, a carne vermelha, o leite, comidas ricas em açúcar e gordura e produtos cultivados com agrotóxico, industrializados ou de procedência desconhecida. Assim, passa a seguir um regime alimentar extremamente rígido", diz Dirce. Quando não consegue controlar o que come, a ortoréxica se sente culpada e impura.

Pesquisadores da Universidade La Sapienza, na Itália, avaliaram os hábitos alimentares de 404 voluntários e descobriram que 28 deles sofriam de ortorexia. Além de terem personalidade obsessiva- compulsiva, os participantes descreviam como “perigosos” os alimentos que continham conservantes e como “artifi ciais” os industrializados.

Quais são os sinais A ortorexia não aparece do dia para a noite. Segundo um artigo do serviço de psiquiatria do Hospital de Mósteles, na Espanha, no início os pacientes com o transtorno apenas querem aprimorar sua saúde, tratar uma doença ou perder peso. Até que a dieta se torna o centro de sua vida. Além disso, a ortoréxica costuma ter certas manias. “Determina horários impreteríveis para as refeições e associa uma hora do dia com um alimento. Por exemplo, no café da manhã come sempre linhaça”, diz o psicanalista Raphael Boechat, da Universidade de Brasília (UnB).

Por que faz mal Como as ortoréxicas repetem o mesmo cardápio, podem desenvolver defi ciências nutricionais importantes. A carência de ferro e cálcio favorece a anemia e a osteoporose. “A falta de nutrientes induz ainda a um quadro de stress oxidativo, que danifi ca as células”, diz o nutricionista esportivo Luis Meirelles, de São Paulo.

Como a ortoréxica só come o que ela mesma prepara ou cujo processo acompanha, deixa de sair para jantar com os amigos e se isola para evitar o consumo de alimentos ditos nocivos.

Da mesma forma que endemonizam alguns produtos, as ortoréxicas criam suas próprias regras para tachar outros como saudáveis. Acreditam que há mais diferenças entre um produto e outro do que de fato existem. Não há um consenso entre os especialistas se, por exemplo, os alimentos orgânicos, os prediletos dessa galera, são mais nutritivos do que os tradicionais. É claro que há outros motivos para você preferir os orgânicos — como o cultivo sem aditivos químicos —, mas nada que justifi que recusar uma pizza por não conhecer a procedência do tomate.

O que fazer Comer de forma saudável não faz mal a ninguém. Só não vale transformar a refeição em tabelas nutricionais e recusar prazeres. Se a sua preocupação com os alimentos estiver atrapalhando a sua vida, busque ajuda. A ortorexia precisa de tratamento médico. Se o comportamento obsessivo tiver traços de depressão, normalmente se faz uso de medicamentos antidepressivos. “Eles aumentam a disponibilidade de serotonina, neurotransmissor responsável pela sensação de bem-estar, em regiões cerebrais que estão relacionadas com as crenças obsessivas e inadequadas sobre alimentação e imagem corporal”, explica o psiquiatra Alexandre Pinto de Azevedo, do Ambulatório de Transtornos Alimentares do Hospital das Clínicas de São Paulo.
Quatro horas de musculação por dia, cardápio composto exclusivamente de alimentos crus, nenhum corante ou conservante no prato. Até onde você está disposta a ir para ser saudável?
Por Juliana Diniz // Fotos Chayo Mata
VIGOREXIA :   O  que é A preocupação exacerbada em ter um corpo ideal, que leva à dependência da prática esportiva. É uma síndrome psiquiátrica em que a pessoa se enxerga menor do que realmente é. A vigoréxica está sempre insatisfeita com seus músculos e busca obsessivamente a perfeição. Quando se olha no espelho, vê uma mulher magra e fraca onde está um corpo construído por horas e horas de musculação. E aí todo dia ela faz tudo sempre igual: se sacode às 6 horas da manhã e corre para a academia.

Quais são os sinais A vigorexia é mais frequente em homens, porém está se tornando cada vez mais comum em mulheres — e não é coisa só de atletas profi ssionais. Estima-se que 10% dos praticantes de musculação apresentem o distúrbio. As vigoréxicas não costumam se achar doentes porque, afi nal, se preocupam em ter um corpo cada vez mais saudável. O problema é que, para atingi-lo, adotam uma carga pesada de treinos contínuos, com expectativa de superar progressivamente o peso que carregam nos exercícios e, mesmo assim, jamais se sentem plenamente satisfeitas. Se alguém lhe diz que está magra, ela malha quatro horas seguidas. “O culto à imagem adquire o caráter de fanatismo. É um narcisismo exacerbado”, afi rma Dirce.

As mulheres vigoréxicas sentem orgulho por serem capazes de se exercitar mais do que as outras. Elas possuem consciência de que atuam no excesso, mas não pensam nas consequências negativas disso. Tratam a fi ta métrica como fi el companheira na checagem diária das medidas de braços, pernas, coxas, peitoral... Quando são obrigadas a faltar a um treino por causa do trabalho ou da consulta no dentista, a culpa é tão grande que elas fi cam mal e até caem no choro. “São tão obcecadas pela ginástica que deixam de sair à noite para não comprometer o rendimento no treino do dia seguinte”, diz Boechat. Preocupadas com força, potência e efi ciência, acabam adquirindo corpos masculinizados.

Por que faz mal Em primeiro lugar, porque vicia. “O excesso de exercícios físicos eleva as endorfi nas, substâncias responsáveis pela sensação de bem-estar, que provocam dependência emocional e química ao exercício”, diz a médica do esporte Ana Lúcia de Sá Pinto, pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP).

A adição pela atividade física leva a vigoréxica a aumentar constantemente o volume e a intensidade dos exercícios sem tempo de descanso para que os músculos se recomponham. Segundo um levantamento da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) realizado com 413 frequentadores de 17 academias, a média de tempo passado nas academias da capital paulista é de 11 horas por semana, quatro a mais do que o período máximo recomendado pelo Colégio Americano de Medicina Esportiva. O resultado do excesso são as lesões.

A vigorexia pode aumentar o stress, levar a aumento da pressão arterial e arritmia, diminuição excessiva do percentual de gordura e bloqueio da menstruação. “Como consequência dessa alteração do ciclo menstrual, há diminuição de massa óssea (osteopenia) ou até mesmo osteoporose, favorecendo fraturas por stress”, diz Ana Lúcia.

Na ânsia de conseguir o aumento muscular mais rapidamente, as vigoréxicas aumentam a ingestão de carboidratos e de proteínas em quantidades acima das recomendadas, abusam de suplementos proteicos e estimuladores da hipertrofi a muscular. Algumas vão ainda mais longe: apelam para anabolizantes, que alteram a orquestração dos hormônios do corpo. Na mulher, isso causa hipertrofi a do clitóris e das cordas vocais, gerando aumento perceptível do timbre da voz”, afi rma Meirelles. Além disso, o uso de esteroides pode causar lesões no fígado e parada cardíaca.

O que fazer De forma geral, é preciso recorrer à psicoterapia para reavaliar a percepção de sua imagem corporal e, em alguns casos, é necessário fazer uso de medicamentos para controlar a ansiedade e o comportamento depressivo. “Nesses casos, a autoestima está tão comprometida que o indivíduo tenta consertá-la por meio de mudanças na aparência, mas não para se aproximar da ideia comum de belo, e sim do que ele próprio colocou como meta para sentir-se bem”, afi rma Azevedo. Ou seja, em primeiro lugar você precisa saber por que está treinando e quanto o exercício melhora ou prejudica a sua vida. Você pode continuar sonhando com uma barriga sarada, mas sem extrapolar os limites do bom senso e sacrifi car a sua saúde por ela.


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